sexta-feira, 27 de março de 2009

Lançamento

Confidências


Cartas revelam a personalidade de Machado de Assis, totalmente preocupado com o amigo Mário de Alencar

Ricardo Gomes


Ainda nas comemorações do centenário de morte de Machado de Assis, a Editora Ouro sobre Azul lança Empréstimos de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar, apaixonante viagem pelo Rio de Janeiro do final do século XIX, o começo do século XX, feita através da experiência de um ser excepcional, que soube aliar a finura do texto e a argúcia da observação, a um conjunto raro de qualidades humanas.

Ocioso seria afirmas que o interesse sobre a vida e obra do “bruxo do Cosme Velho”, se esgotou. Hoje, com as diversas edições, especialmente das cartas trocadas com representantes das mais diversas esferas da sociedade, aspectos da personalidade de Machado de Assis são revelados.
Machado de Assis poderia integrar o grupo dos criadores que imprimiram a escrita timbre mais original do que a vida, equilibrando um cotidiano medido com o contrapeso da ousadia na invenção. As cartas trocadas com Mário de Alencar revelam um outro Machado, preocupado com os destinos da Academia Brasileira de Letras. Algumas inéditas e outras já publicadas, as cartas estão ganhando edição organizada por Eduardo Coutinho e Teresa Cristina Meireles de Oliveira, lançamento da Editora Ouro sobre Azul. Empréstimo de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar constitui uma obra importante para os estudiosos do Imortal, revelando a elegância de sentimentos com que, esquecido de si, velho e doente, passa bom tempo, do período que vai de 1902 a 1908, empenhado em atender as fragilidades do amigo mais moço, amparando-o, conduzindo-o e confortando-o.
Para Machado, as cartas acabam funcionando como pequenas narrativas, trazendo à tona, alem do desprendimento de quem escreve, um numero de situações e episódios sempre externos a Machado de Assis, que dessa forma, mantém intacta a discrição em torno da esfera privada.
As cartas mostram ainda hábitos e costumes de um tempo diferente do nosso, quando o texto manuscrito reinava como forma de comunicação, com os bondes ainda puxados a burros, a indumentária, extremamente composta e a podidez, um valor. Um tempo que as correspondências eram entregues por mensageiros, que sempre aguardavam pelas respostas.
Ao contrario da imagem de Machado de Assis como um homem mal humorado, acido e desencantado com a vida as cartas revelam um outro Machado, solicito e carinhoso com um correspondente cuja fragilidade percebe-se claramente. E essa amizade é correspondida por Mário de Alencar com apego e dedicação ainda maiores, como se pode verificar lendo as suas cartas a Machado de Assis. Chega a ser comovente o tom carinhoso com o qual reveste a veneração pelo amigo, expressa não apenas pela admiração pela sua obra, mas no interesse pela sua saúde e bem estar.
Mário de Alencar não permite que os males de sua constituição delicada diminua a atenção com que procura mitigar as do amigo. Postas lado a lado, as cartas reunidas no livro formam um dialogo da mais edificada amizade.

As confidencias a um grande amigo

As cartas trocadas entre Machado de Assis com Mário de Alencar revelam a amizade entre ambos. Pertencentes a Afrânio Coutinho, grande estudioso da obra de Machado de Assis, os manuscritos que estão reunidos no livro Empréstimos de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar fazem parte do Centro de Estudos Afrânio Peixoto, localizado na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao todo são vinte e duas cartas, escritas pelo “bruxo do Cosme Velho ao amigo, filho do escritos José de Alencar, ambos grandes amigos do autor de Dom Casmurro, no período que se estende de novembro de 1902 a agosto de 1908, um mês antes de seu falecimento.
A amizade de Machado de Assis devotava a Mário de Alencar vinha da imensa admiração que nutria pela figura do pai do jovem interlocutor referencia literária fundamental na trajetória intelectual de toda a sua geração.
Desde as primeiras cartas, já demonstrava Machado de Assis uma grande amizade. E quase sempre as referencias como “meu querido amigo”, e a despedida ratifica o bom “velho amigo”. Apesar da diferença de idade, o teor das cartas demonstram um profundo afeto a que não falta a presença da camaradagem, do desabafo e da confiança recíproca: duas almas que trocam confidencias, a quem os nervos são o inimigo a ser combatido e a melancolia o incomodo a ser mitigado.
As sucessivas queixas de Mário de Alencar em relação a sua saúde levam Machado a exortar o amigo a enfrentar o mal que o aflige. A arte é remédio e o melhor deles, destaca em uma das cartas. Machado aconselha o amigo a buscar o conforto na família e quando pede desculpas ao amigo quando se aproxima do final de sua vida, pela sua letra e pela brevidade de suas cartas, sinais evidentes de sua saúde debilitada.



Um empréstimo de ouro


A atenção de Machado com o amigo, que, estando por perto, equivaleria a um empréstimo de ouro, revelação feita em sua carta de 25 de março de 1907, não se restringe aos aspectos mencionados, volta-se também para a sua produção literária. Machado acompanha com grande interesse, como no caso do mito de Prometeu, que Mário investigava visando a uma possível publicação. Esse fenômeno, que aparece em varias cartas, torna-se emblemático, configura-se num símbolo da audácia, heroísmo e suplicio, que se pode identificar com a figura do artista criador.
E diante disso, nas cartas as exortações de Machado para com seu projeto literário tenha animo diante das adversidades e continue com seu projeto literário. E3m carta de 23 de fevereiro de 1908, relata Machado ao amigo Recomende-me também ao velho Prometeu, a quem dirá que o espero inteiro e humano, ainda que em outra língua, todas são cabais para o suplicio.
Este tom inequivocadamente preenche de melancolia, apesar do estimulo dado ao amigo, é algo presente nas cartas de Machado, onde se vêem a sombra do Conselheiro Aires, protagonista do romance que concluía, conforme carta de 22 de dezembro de 1907. É um Machado nostálgico, triste, que revela: Estes meus últimos dias tem sido de enfado e naturalmente não é assunto que procure papel, e na carta de 7 de março de 1908, onde exclama: Um hospital, meu querido..

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